sábado, 7 de maio de 2011
Lover I don't have to love.
Havia dezenas de vozes se fundindo numa multidão que parecia interminável. Os olhos de Bruno corriam indiferentes pelas faces que o cercavam. Nada tão fascinante. Nada com um magnetismo forte o suficiente para roubar um olhar demorado. Mas ele era apenas mais uma vítima do destino, da sorte, do acaso ou qualquer coisa. Num átimo, seus olhos se fixaram numa pessoa que – não tinha certeza ainda – poderia superar suas expectativas sobre alguém-interessante-e-diferente. Seus olhos a observavam vorazes, e percorriam toda a extensão do seu corpo sem que ele percebesse. A imagem a sua frente havia lhe roubado a sanidade por alguns minutos, e ele era apenas um corpo estático diante de dezenas de outros que se moviam no ritmo da música. – Que naqueles minutos parecia ter cessado. Não havia som, não havia movimento, não havia mais ninguém além dele e da mulher que observava. No meio de tanta gente desinteressante, tanta gente indiferente, tanta gente que parece não corresponder as suas necessidades, sempre há alguém em quem enxergamos uma luz de esperança reluzindo em sua volta. O primeiro olhar roubado se chama atração, mais alguns olhares e a atração evolui para uma paixão e quando todos os seus olhares se voltam apenas para uma única pessoa, é amor.
Houve por parte dele uma aproximação, uma tentativa de conversa que acabou dando certo e acabou os levando a algum lugar. Apresentaram-se com um simples Prazer-Bruno-Prazer-Malena. Sairam da zona de estou-morrendo-de-vergonha e ultrapassaram a linha da insegurança. Eles pareciam se completar perfeitamente. Como se um fosse a perfeita simetria do outro. É assim que tudo começa.
Mas os dias passam e a intimidade acaba tirando as cores daquilo que parecia ser perfeito. É fácil amar alguém no começo porque é necessário convivência para conhecer os defeitos do outro. E é necessário paciência para aceitá-los. Então no começo não é amor, é apenas um teste. O amor vem depois de todas as tempestades e vendavais, isso se tudo tão afundar.
Ele percebeu que as cores foram desaparecendo frequentemente. Que o cinza já aconchegava-se sobre eles, e suas conversas se tornavam cada vez menos interessantes. Que seus olhares desviavam dos dela. E uma lacuna parecia crescer sobre eles. Eles se tornaram cúmplices numa tentativa de salvar aquilo que estava dando seus últimos suspiros. Um quase-amor enfraquecido pela indiferença. Eram amantes que não se amavam.
E quando o fim chega, alguém sempre tem que sair ferido. E assim se fez. Ele pronunciou as palavras que colocavam o ponto final nessa breve história de um quase-amor. Ela chorou, contestou, e disse que as coisas poderiam ser diferentes. Por que é necessário chegar ao fim para querer mudar as coisas? Por que não se pode mudar no decorrer do tempo?
Ela dizia inconformada que as coisas não precisavam terminar assim. Ele dizia firme que se continuassem ele a magoaria. Respirando fundo, numa última tentativa de não perder aquilo que ela acreditava ter salvação, ela apenas disse que...
...De qualquer forma ela se magoaria. Tanto com o fim quanto com a tentativa de insistir nisso. Porque o amor é uma desculpa para se machucar, e para machucar alguém.
sexta-feira, 6 de maio de 2011
Jamille Rocha Miranda era seu nome.
Carregava sobre si todo o peso de promessas partidas e memórias que morreram antes mesmo de acontecerem. Vivia num mundo criado por ela, como um refúgio de uma realidade insustentável que teimava em trazê-la para baixo. Se fosse criança, a realidade seria aquele monstro no armário que te faz se esconder sob seus cobertores. Assim era a vida, mesmo não sendo mais criança. Escondia-se sobre os cobertores coloridos de sua fantasia, espiando a vida real vez-ou-outra. Eu jamais ousaria dizer que ela não era feliz – A dor não aniquila a felicidade. A felicidade é como fênix, e a dor são as cinzas… A felicidade sempre retorna, tão intensa quanto fora uma vez, mas de uma forma diferente.
Jamille amava muito. Amava tanto que doía. Doía a confusão que isso causava dentro de si. Era como se, de repente, todo seu corpo se transformasse num labirinto nos limites de sua pele, e ela estivesse completamente perdida em seu interior. Doía a incompreensão que constantemente a embalava e impedia de dar passos firmes. Doía a insegurança que a abraçava e sussurrava em seu ouvido palavras sobre um fim tão possível quanto qualquer outra coisa.
Estava cansada de se destruir com sua falta de auto-confiança. Mas ela já sabia – Pois havia sentido em sua própria carne a dor causada pela estaca afiada chamada “Adeus” – que não era tão difícil amar, difícil era conviver, ceder, compreender, aceitar, perdoar… – E guardem bem isso, eu ouso dizer que Perdoar é o ato mais difícil de ser realizado. O erro do outro pulsa em sua cabeça e devora todos seus outros pensamentos, é impossível se livrar dele, é impossível esquecer, a gente só guarda num baú de decepções que a gente tem lá dentro – Amar é fácil, difícil é conviver com as consequências do amor.
Entrou no banheiro para, numa tentativa desesperada, livrar todos os seus fantasmas com uma água quente tocando sua pele branca. Deixou a água escorrer sobre si e, apoiando a cabeça contra a parede gelada do banheiro, percebeu…
…Algumas pessoas foram feitas para se amar, mas não para ficarem juntas.
sábado, 23 de abril de 2011
O Fim.
Talvez não tenha ficado claro, – Provavelmente não ficou – mas é assim que eu vejo O Fim.
domingo, 3 de abril de 2011
Na noite anterior havíamos dormido juntos, e ele me tomou em seus braços aconchegantes e protetores, eu descansei ali, com nossos corpos entregues a lençóis quentes. Com o pensamento seguro de que na próxima manhã ainda pertenceríamos um ao outro.
Aí veio o dia seguinte... E o dia seguinte torna o dia interior meio ofuscado, e com o passar dos dias o passado se torna ainda mais opaco, então nossa imaginação tenta juntar os fatos que acabamos esquecendo, e de repente tudo se torna uma história inventada pelo nosso cérebro. Mas, continuando o raciocínio, o dia seguinte iniciou-se. E é aí que esse texto realmente começa.
Eu levantei cedo por algum motivo sem importância, mas acordei. E eu senti uma dor tão indesejada, tão inesperada, tão insuportável que logo tudo de bom que eu havia acumulado nos dias anteriores havia se transformado em nada.
Um acontecimento ruim desestrutura toda a construção dos bons. É como uma doença. É como uma sina.
Eu sabia que precisava dele, eu sabia que devia compartilhar isso, para aliviar o peso desse fardo, eu sabia que sozinha eu não daria mais nenhum passo, mas ele já estava cheio das minhas dores, das minhas manhas, das minhas palavras sem sentido. Ele estava cansado de me avisar, de me alertar e de abrir meus olhos. Mas ele era o único alívio que eu possuía.
Mas não era justo. Ele não merecia isso.
sábado, 26 de março de 2011
You read me like a book.
Não é assim. Não é como se as pessoas pudessem simplesmente nos ler. Não é como se nossos significados estivessem estampados em nossas cascas. Não me visto com frases óbvias sobre mim. Você não pode me resumir ou me concluir. Não sou um livro para afastar uma eventual falta do que fazer. Não é assim.
Apenas eu leio o livro de toda minha existência, de todo o meu cotidiano, porque ele está impregnado em minha mente, em minhas memórias, em cada dia que se passa. Às vezes eu leio páginas em voz alta para outras pessoas, eu compartilho os segredos do meu livro com elas. Mas elas não compreendem toda a profundidade de ser eu, apenas eu posso compreender.
Há páginas que deixei em branco pela minha dificuldade em me decidir, ou talvez de arriscar. Há páginas que transbordam significados. Há páginas repletas de dor, há páginas que permanecem inacabadas, porque me tornei indiferente em relação a elas.
E, além disso, sou personagem – Às vezes até marcante – do livro da vida de outras pessoas. Em alguns eu me perdi capítulos atrás, e lá fiquei. Em outros, continuo presente, página por página, todos os dias.
Mas eu não quero ser apenas um capítulo...
...Não quero ser apenas uma lembrança. Quero estar lá quando o livro se encerrar.
quinta-feira, 24 de março de 2011
Orgulho
Orgulho é aquele bloqueio ao ato de ceder. É aquilo que te devora por dentro, que sobe entre suas entranhas, estilhaçando seu interior; chega à sua garganta e você sente que ele está louco para sair. O estágio final é quando você o vomita, antes que ele te sufoque. Ele sai de você em forma de palavras brutas, cruéis e mal-pensadas, atingindo a outra pessoa.
Quando você fere alguém com seu orgulho, você sente o quão catastrófico foi aquilo para o outro, mas todos têm seu orgulho, e a pessoa ferida também é orgulhosa demais para demonstrar que aquilo doeu.
Mas o orgulho é aquela proteção invisível que a gente tem, é o impulso do amor-próprio. Sem ele seríamos meros capachos das vontades alheias, e cairíamos a cada dor, a cada sensação de fraqueza, a cada passo em falso. O orgulho nos mantém em pé assim como nossos ossos, e por isso ele não deve deixar de existir em nós, nós é que devemos aprender a lidar com ele, nós é que devemos saber o momento de engoli-lo, por mais amargo que seja...
...Afinal de contas, de que adianta ter tanto orgulho vestido de amor-próprio quando, depois de expelir palavras afiadas, temos que encarar as pessoas que amamos sofrendo?
quinta-feira, 10 de março de 2011
Keep the faith.
É algo sobre fé, e uma mistura do real e irreal.
Desde sempre as pessoas se sentem dominadas por uma fraqueza vinda de dentro. Desde sempre as pessoas procuram por uma base que as sustente. Desde sempre as pessoas precisam de uma desculpa para fatos inexplicáveis.
Mas eu não acho que, por exemplo, uma aparição numa janela em forma de uma santa seja um milagre. Acho que uma mãe solteira cuidar de três filhos e ainda ter tempo para trabalhar é um milagre. Compreendem? Sim, eu sei, há fatos ainda sem explicação, mas eu não os atribuiria a um Deus.
Eu não acredito em religiões. Acredito que isso é apenas uma forma de separar as pessoas. Sendo que algumas religiões são inaceitáveis. Como apedrejar alguém em público... Isso é algo divino? Então, de que Deus estamos falando?
As pessoas fogem de Deus enquanto está tudo bem, enquanto não precisam dele, enquanto estão dispostas a errar. Segundo a Igreja Católica, Deus perdoa tudo. E como diz Milan Kundera, tudo é cinicamente perdoado, antes mesmo de ocorrer o próprio erro – Não com essas palavras. De qualquer forma, li isso em A insustentável leveza do ser.
Deus é o desespero das pessoas em busca de soluções, quando percebem que seus esforços estão cada vez mais inúteis. Há exceções, é claro. Sempre há. Há pessoas devotas, e que fazem Deus viver em atos humanitários. Mas não é sobre Deus, é sobre a bondade de cada um. Se Deus existe, na minha opinião, ele não é o Pai-de-todos-nós, mas sim, nós mesmos. E por isso, nem mesmo deveria ser nomeado.
As pessoas precisam acreditar que haja algo mais, porque sabem que sua força é escassa, mas automaticamente – Até cegamente, eu diria – acreditar num Deus é acreditar em si, é sugar todas as forças do seu corpo, da sua mente, da sua alma, mas glorificar outro ser, esse Deus que tanto falam.
Não é sobre Deus, é sobre você e sua própria força. Não é sobre Deus, é sobre o medo de ter fé demais em si e se decepcionar. Não é sobre Deus, é sobre a escassa autoconfiança, e a necessidade de um refúgio.
Não é sobre Deus, é sobre o efeito Placebo causado pela sua força, pela sua vontade, pela sua fé.
As pessoas não percebem, mas Deus está em cada uma delas, não como outro ser, mas como elas mesmas. O lado mais forte.
Não quero que percam a fé; nada é mais saudável do que acreditar em alguma coisa. Mas deveriam abrir seus olhos internos e enxergar dentro de si. Lá vocês verão Deus, mas eu não o chamaria assim, porque ele é a união de tudo de melhor que as pessoas carregam.
Por isso eu não acredito em Deus, prefiro acreditar nas pessoas.