quinta-feira, 24 de março de 2011

Orgulho

Orgulho é aquele bloqueio ao ato de ceder. É aquilo que te devora por dentro, que sobe entre suas entranhas, estilhaçando seu interior; chega à sua garganta e você sente que ele está louco para sair. O estágio final é quando você o vomita, antes que ele te sufoque. Ele sai de você em forma de palavras brutas, cruéis e mal-pensadas, atingindo a outra pessoa.

Quando você fere alguém com seu orgulho, você sente o quão catastrófico foi aquilo para o outro, mas todos têm seu orgulho, e a pessoa ferida também é orgulhosa demais para demonstrar que aquilo doeu.

Mas o orgulho é aquela proteção invisível que a gente tem, é o impulso do amor-próprio. Sem ele seríamos meros capachos das vontades alheias, e cairíamos a cada dor, a cada sensação de fraqueza, a cada passo em falso. O orgulho nos mantém em pé assim como nossos ossos, e por isso ele não deve deixar de existir em nós, nós é que devemos aprender a lidar com ele, nós é que devemos saber o momento de engoli-lo, por mais amargo que seja...

...Afinal de contas, de que adianta ter tanto orgulho vestido de amor-próprio quando, depois de expelir palavras afiadas, temos que encarar as pessoas que amamos sofrendo?

2 comentários:

Nara Sales disse...

Orgulho é defesa mal pensada de espírito.

Bruno Angeli (Brunnus Reqqiem) disse...

Muito bem definido o que vem a ser o orgulho e seus efeitos. O texto tem dois grandes momentos. Peço licença, ousarei discordar de um marco, porque vejo de uma outra forma certa colocação que fizeste sobre o amor-próprio e o orgulho.
No primeiro momento há aquele sentimento interior que só se faz valer a pessoa, a pessoa se autoconsidera em tudo apenas, olhando apenas para si mesma e os seus desejos. Baseado nisto a pessoa não cede em momento algum, e mesmo mediante total humilhação se manterá como se nada tivesse acontecido e para se firmar sempre, não ousará lançar mão de nenhuma artimanha. No segundo momento, você fala de um impulso interior na qual mantém a integridade pessoal para que não sejamos seres submissos. Para que possamos nos manter autônomos no pensar e no dizer frente a situações ou a uma situação delicada.
Até aqui creio ter apenas repetido os dois conceitos expressos no seu texto. A diferença que quero exprimir farei no experimento mental que se segue. Imaginemos duas pessoas até então ligadas por laços de afeto, amizade, vivências, mas que tiveram uma grande divergência. Uma grande discussão começou e cada um põe os pontos que pela amizade sempre foi relevado – sim, porque tudo foi sempre tão bom que as farpas eram deixadas de lado. Mas um acontecimento gritante explodiu e aí tudo vem pra fora. Uma delas é um ser totalmente vaidoso, afirmando nunca ter errado e sempre ter concedido os erros da outra pessoa em questão e é capaz de dizer palavras ásperas e rudes se o outro lado apresenta evidência suficiente de que está errada. O seu olhar de superioridade preserva em vários momentos uma certa imperturbabilidade, mas se muito contrariada, frente a indícios, o fogo lhe sai pela boca. A outra pessoa já com lágrimas nos olhos tentando achar uma medida justa em analisar o lado da outra pessoa e também o seu, expõe as inquietações, os erros do outro, mas reflete também sobre os pontos que a outra pessoa exprimiu. No entanto, frente a tantas condições quase impossíveis de se realizar que a outra impôs, a segunda pessoa se posiciona, vendo que os limites da amizade e das individualidades são forçados e ela não concorda com isto porque viraria uma escravidão. Um joguete dos desejos da outra pessoa. Baseado nisto, a outra pessoa orgulhosa lança um olhar ferino de nojo pela contrariedade e sai batendo porta, a outra pessoa tem em si um olhar de justiça e severidade e ao mesmo tempo admite seu sofrimento por perder a amizade e acaba por chorar.
Sinto que poderia ser mais sucinto na descrição, mas é que quis deixar claro a diferença que vejo entre os dois casos de estado interior. Não vejo o primeiro orgulho sinalizado no post como uma forma derivada do segundo orgulho descrito por você, nem como uma mudança de grau, mas duas categorias completamente diferentes. Dois estados tão diferentes de ser e atuar que as duas pessoas em questões acabariam por discordar devido a não complementação.
Existe uma autoafirmação benéfica de si mesmo frente o que é exterior para mantermos nossa individualidade e autonomia, mas esta liberdade deve ser estar de mãos dadas com outro fato: a consciência de nossos limites. Já a vaidade, ou o primeiro orgulho do texto, é como disse um autor: “A palavra que em hebraico expressa vaidade é hebel, a qual possui um núcleo com o sentido de ‘neblina’, ‘cerração’, ‘névoa espessa’. Uma pessoa envolta por vaidade parece mesmo estar dentro de uma neblina particular, que só lhe permite reconhecer e apreciar a si própria.”
Desculpe tão longa exposição, mas eu fiquei muito admirado com você, então levo a sério e com muito carinho o projeto de seu blog.