segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Gritos em silêncio.

A penumbra adentrava o apartamento, mostrando que mais um dia havia chegado ao fim.

O clima estava quente, – Não era um calor aconchegante como o calor humano, era algo infernal – mas não era o ar abafado o culpado pela sua falta de ar. Ela não sabia o que era, mas tinha certeza de que estava sufocando.

E conforme ia escurecendo lá fora, ia escurecendo também dentro dela, até que nenhum sentimento pudesse ser reconhecido naquela imensidão negra.

Mas apesar de tudo, havia serenidade... Até se iniciar uma tempestade de palavras afiadas, inundando-a e afogando-a numa falta latejante de amor-próprio.

As palavras carregavam um peso insustentável, e a cada segundo ela afundava mais naquele rio de palavras que ia se formando. As frases que saiam da boca dele atingiam-na como um vento frio no auge do inverno... Era cortante.

Cortante. Insustentável. Doloroso.

O que mais doía era o fato de não ser mentira. Ela buscava em seu baú de memórias guardadas algo que pudesse a confortar; algo que colocasse um pouco de mentira na verdade, ou que pelo menos a aliviasse. Não havia nada. Nada além de uma grande culpa. De uma infinita insuficiência.

E tudo que ela sentia, tudo que ela percebia, não queria que ele também sentisse. Ela não queria que ele percebesse a insuficiência dela... Que talvez ela nunca fosse capaz de preencher as urgências dele.

A tempestade de palavras cortantes havia cessado, mas não a dor. Essa pulsava loucamente dentro dela, se debatendo entre suas entranhas, querendo sair em forma de gritos agudos ou de lágrimas contínuas, intermináveis. Ela precisava por aquilo para fora... Em silêncio.

O silêncio devorou o som. Em instantes não se ouvia nada além dos barulhos cotidianos da noite. O silêncio indiferente doía mais do que o corte profundo causado pelas palavras. Pela verdade...

Havia muito a ser dito, mas ela sentiu receio em quebrar o silêncio. Estava paralisada, como se a veracidade das palavras fosse venenosa e a tivesse atacado. Não se moveu.

Estavam deitados juntos. O escuro a impedia de olhar para ele, talvez fosse melhor assim. Seria insuportável olhá-lo nos olhos. Ele, então, se virou de costas para ela como se isso mostrasse que havia desistido de esperar que ela dissesse alguma coisa. Então ele adormeceu, e ela permaneceu imóvel – Apenas por fora, porque por dentro uma dor brutal movia-se incansavelmente.

Minutos depois ela esticou seu braço para tocar a pele nua das costas dele. Com isso, seus olhos cederam e as lágrimas caíram silenciosas. O que mais doeu nesse ato foi o pensamento de que, esticando o braço ela podia alcançá-lo. Mesmo decepcionado, ele estava ali, dormindo ao lado dela... Mas e se um dia ela esticar o braço e não conseguir alcançá-lo? E se ela esticar o braço apenas para sentir O Nada? E se ele se tornar para sempre inalcançável?

Esse foi o estopim da dor.

Ela levantou-se sem fazer barulho e trancou-se no banheiro, como se ali fosse um lugar seguro, uma fortaleza impenetrável onde ela poderia despejar sua dor. E assim o fez... Em silêncio. Chorou por um tempo, não até o fim, mas precisava diminuir a dor antes que a mesma crescesse dentro dela como uma praga, devorando tudo que fosse bonito. Tudo que a fazia bem.

Voltou para a cama. Para o lado dele. Agradeceu por estar escuro e por ele ter adormecido, assim não veria seus olhos vermelhos e sua cara inchada.

Numa última tentativa de aliviar a culpa, ela novamente o tocou, e com a ponta dos dedos ela escreveu nas costas expostas dele “Desculpa. Eu amo você.”

A dor havia se aquietado. Ainda estava lá, mas escondia-se silenciosa na escuridão dentro dela. Uma última lágrima tocou o travesseiro e ela adormeceu.

Seu pensamento? “O clarear do dia lá fora irá clarear dentro de mim, limpando qualquer vestígio de escuridão. Eu vou ser suficiente para você, porque sempre que eu esticar meu braço, tudo que eu quero é te sentir. Saber que ainda está aqui.”

Um comentário:

Tayná disse...

Incrível. Dá para sentir o que ela sente.